Coletiva na Galeria Leme investe na diversidade e foge do óbvio

   
Cabelo: "Ovo Bomba" (2018)
Com curadoria de Catarina Duncan, está em cartaz na Galeria Leme a exposição coletiva “⦿“. São apresentadas obras de 17 artistas nacionais e internacionais, escolhidas após uma pesquisa em torno do uso de símbolos como ferramentas de linguagem.

A ideia foi construir um campo imaginário onde símbolos se sobrepõem à palavra escrita para comunicar tanto questões políticas quanto as relações entre o ser humano, o oculto e o desconhecido. "O título da exposição “⦿” remete ao símbolo utilizado para identificar o Sol, que em muitas culturas é compreendido como o indefinível ou a manifestação do divino. Seu simbolismo é tão diversificado quanto as contradições de interpretação do Sol – fonte de luz que além de vivificar, torna as coisas perceptíveis, contendo sempre algo que não pode ser explicado pelas vias da razão. “⦿” é também um círculo e um ponto, com propriedades simbólicas de perfeição, homogeneidade e indivisibilidade, posto que não tem começo e nem fim, o que o aproxima do conceito de tempo circular", explica o texto de apresentação da galeria.

Aline Motta: "Corpo Celeste" (2018)
A expografia foi pensada a partir da ideia de uma relação entre dois mundos, físico e espiritual, tendo como referência duas obras: "Ovo Bomba" (2018) do artista Cabelo, e "Corpo Celeste" (2018), da artista Aline Motta. A primeira é um ovo oco vermelho pintado com símbolos, como uma serpente preta, tendo em seus hemisférios escritas as palavras Yorubá ‘Ayê’ (mundo físico) e ‘Orum’ (mundo espiritual).


A segunda é pensada a partir do cosmograma Bakongo, referência ancestral da cultura Kongo do Oeste Africano. A obra, impressão sobre tecido, expõe também a relação entre ‘Nseke’ (mundo físico) e ‘Mpemba’ (mundo espiritual).

Abdias Nascimento: "Quilombismo (Exu e Ogum)" (1980)
Muito importante dizer que uma das principais fontes de pesquisa para a exposição foi a obra do artista plástico e ativista Abdias Nascimento, presente com a obra "Quilombismo (Exu e Ogum)" (1980), pintura cujo fundo é dividido em verde e vermelho, as mesmas da bandeira pan-africanista, ícone do movimento intelectual que reforça os laços de todos os povos da Diáspora Africana. Sobreposto a essas cores estão os instrumentos dos orixás Exu e Ogum, unindo os princípios da comunicação, da contradição e da dialética (Exu) com os da inovação tecnológica e dos compromissos de luta (Ogum).

"As obras escolhidas são atravessadas por dimensões alegóricas, míticas, intuitivas e políticas e se utilizam de símbolos para emanar novas ideias e propostas de existência e relação. A prevalência do símbolo sobre a palavra é uma proposta de alternância de poder, para que novas ferramentas de luta e comunicação possam ser desenvolvidas em um mundo onde a escuta se faz cada vez mais escassa."

Mais uma das exposições que reafirmam o desejo da galeria de investir na diversidade e fugir do óbvio. Motivo pelo qual, inclusive, é uma das minhas galerias favoritas. Além do prédio, construção de Paulo Mendes da Rocha, que é espetacular.


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